quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ayub, o Caça Craques

**O texto que segue foi publicado no Jornal Município Dia a Dia, de Brusque, em 24 de dezembro de 2010**


Posição honrosa essa de volante. Volante de contenção. Não para o mainstream, não para os narradores, nem para as televisões, ou revistas, ou jornais, que costumam chamá-lo de "grosso", de "brucutu". Mas para o próprio jogador.

Boleiro satisfeito, pode ter certeza, é volante de contenção.

O cara tem que ser muito autossuficiente para jogar ali, entre a grande área da sua defesa e o círculo central. Protege a zaga como se fosse sua filha de 16 anos, predicado antigo do volante de contenção. E, hoje em dia, além "cão de guarda", começa o jogo, tem passe preciso, orienta o posicionamento dos companheiros. Vez ou outra até se arrisca ao ataque, é elemento surpresa. Até faz gol.

Pedro Ayub Julião Júnior, aos 33 anos, volante do Brusque, é espelho da posição. Isso porque todo volante tem que saber seu lugar, tem que ser humilde o suficiente para aparecer pouco, e orgulhoso o bastante para mostrar quem manda no território. Um volante de verdade, como Pedro Ayub, não se importa em passar 90 minutos apenas perseguindo um só jogador, ser o "caça-craques", como ele se definiu.

- Não tenho mais vaidade. Se o treinador pede pra eu anular o craque do time adversário, faço sem problemas. Importante é meu time ganhar o jogo. Eu não preciso aparecer, mas se ele também não aparecer, está bom. Um jogador diferenciado pode definir o jogo" - explica, deixando transparecer o sotaque do interior gaúcho, da cidade de Itaqui, onde nasceu.

Lateral de origem, Ayub fez a maior parte de sua carreira no futebol como volante. Em 2002, quando caiu nas mãos do técnico Hélio Vieira (aquele que treinou o Brusque no segundo turno do Catarinão 2010), jogando pelo Santa Cruz/RS, riscou a palavra lateral da carteira de trabalho e escreveu VOLANTE.

Como lateral foi jogador do Grêmio de 1996 a 2000, mas teve um desentendimento com o técnico Celso Roth (olha o Celsão aí) e sua carreira não decolou com a intensidade que se imaginava. No banco por muito tempo, acabou emprestado.

- Queria ser titular de qualquer maneira e acabei discutindo com o treinador. Passei quase todo ano de 99 sem jogar. Imaturidade. Hoje me arrependo. Coisa de criança - lembra.

O que não tira o adjetivo de "bom jogador" do currículo de Ayub. Depois do Grêmio, fez grandes jornadas em outros clubes (veja a ficha completa mais abaixo) e conseguiu, financeiramente, encaminhar bem o futuro de sua família.


Além da quatro linhas
Fora de campo, Ayub mostra outras qualidades. Cristão atuante, não é raro vê-lo distribuindo carinho e compaixão aos colegas de trabalho. Volta e meia presenteia um dos seus com uma chuteira aqui, um par de luvas ali e, pela maioria dos clubes que passa organiza com os companheiros de bola uma "caixinha" para fazer doações no fim de ano. Em 2010, como o grupo do Brusque se moldou há pouco mais de um mês, não deu tempo de fazer "caixinha", mas Ayub providenciou uma cesta básica gorda para os funcionários que fazem o dia a dia do Bruscão acontecer.

- São pessoas que fazem muito por ti, e às vezes não aparecem. Mas merecem - resume.

Na sua passagem anterior pelo Brusque, ainda no Catarinense-2010, jogou dois meses e meio, o time não estava bem, e uma proposta tentadora do Brasiliense bateu à sua porta. Ayub conversou com a diretoria do Bruscão, devolveu o dinheiro que havia recebido nos dois primeiros meses, abriu mão do que ainda teria para receber, e foi. Deixou as portas abertas e voltou.

Traços da personalidade deste volante que tem contrato com o Brusque até final deste ano. No time de Paulo Turra - com quem jogou no Caxias/RS - divide as funções de "volância" com Leandro Leite.

- Quando eu saio, o Leandro faz a cobertura. E quando ele sai, eu seguro mais. Quando o lateral sai pro ataque, o volante fecha o lado dele. Os jogadores de frente têm que decidir o jogo. Nós temos que dar segurança - ensina.

O futuro a Deus pertence
Não tem época marcada pra parar de jogar. Ayub costuma dizer que "o futuro a Deus pertence", mas sabe que tentará continuar trabalhando com futebol. Talvez treinador. Quem sabe empresário.

- Enquanto meu telefone tocar pra eu jogar, e eu tiver saúde, vou jogar.

No fim da conversa, o volante faz um pedido a todos: colegas, imprensa, torcedores.

- Vamos tornar o Brusque maior, e vamos crescer todos juntos. Vamos marcar nosso nome no Brusque. É um ano com muitos jogadores de qualidade. Temos que fazer uma família e buscar títulos. Temos um calendário, uma base, vamos dar continuidade ao sucesso.

No Brusque, Ayub é uma das lideranças. Na foto (tirada por Thiago Andrade) aparece treinando com Aloísio Chulapa

Ficha técnica

Nome: Pedro Ayub Julião Jr.
Posição: Volante
Data de Nascimento: 15/6/1977
Naturalidade: Itaqui-RS
Títulos: Campeão Brasileiro Seleção Gaúcha (1996), Campeão Copa Dalto Menezes (2005) e Campeão Copa Emídio Perondi (2005)

Clubes:
1993-1997: Caxias-RS
1997-2002: Lerida-Espanha
1998-2000: Grêmio FBPA
2000: Brasil de Pelotas-RS
2001: Santa Cruz-RS
2002: Ipatinga-MG
2003: Vila Nova-GO
2004-2006: Novo Hamburgo-RS
2006: Avaí-SC
2007: Portuguesa-SP
2007: Brasil de Pelotas-RS
2007-2008: Avaí-SC
2009: Brusque-SC
2009-2010: Brasiliense-DF
2010: Chapecoense-SC
2010: Brusque-SC

domingo, 5 de dezembro de 2010

ENTREVISTA: Paulo Turra



Confesso que fiquei embevecido quando entrevistei Paulo Turra, 36 anos, técnico de futebol. Foram 50 minutos de perguntas e respostas, muitas vezes em tom descontraído, sempre com muito profissionalismo e sobriedade, características claras na personalidade deste treinador que assumiu o Bruscão no dia 16 de novembro de 2010. 

Fiquei impressionado com sua capacidade de persuasão e, principalmente, com sua história e com sua autoconfiaça. Não é que ele seja "cheião", "nariz empinado", mas o homem tem certeza do que fala. E fala bem, tem bom discurso. Tem convicção em suas ideias.

Percebi que seus 18 anos como jogador lhe deram vivência suficiente para querer ser treinador bem sucedido. Jogou de Copa Santa Catarina a Champions League. Deu "cerrotadas", como ele mesmo definiu, em Ronaldinho Gaúcho, David Beckham, Ruud Van Nistelrooy, entre outros. Jogou em estádios de Barcelona, Manchester, Dortmund, Glasgow e outros tantos lugares e templos do futebol. Quase sempre vestindo a faixa de capitão.

Na "vida normal" é casado com uma psicóloga, mantém residência fixa em Caxias do Sul/RS. É natural de Tuparendi, cidade com menos de 10 mil habiantes situada às márgens do Rio Uruguai, no Noroeste Gaúcho.

Como a entrevista foi concedida na quarta-feira, 1º de dezembro, três dias antes da estreia do Bruscão na Recopa, não pudemos discutir sobre o desempenho do time no certame, mas invadimos com vigor o campo de jogo, suas táticas, suas histórias e o futuro. "Um dia vou estar em alto nível. Pode ter certeza que eu vou chegar", foi a promessa que Turra fez.


Jornal Município: Hoje tu contas com 23 jogadores no elenco do Bruscão. É o suficiente para a temporada 2011?
Paulo Turra: Estamos buscando mais duas posições. Mais um zagueiro e mais um lateral-esquerdo. E no decorrer do trabalho, até o dia 16 de janeiro, na estreia do Catarinense, vamos ver a necessidade (de contratar mais). Até lá devemos fazer mais uns quatro jogos-treinos pra ver a evolução. Com 25 jogadores estamos encaminhados para iniciar o campeonato.

JM: Já te adaptaste à cidade?
PT:
Só estou com dificuldade de encontrar apartamento. Têm apartamentos, mas não encaixa naquilo que a gente quer. Sempre falei que salário não era problema, mas gosto de ter uma condição de vida boa. Agora estou no hotel. Meu dia a dia se resume a estádio, treinamento, hotel. Não conheço nada da cidade, nada da região.

JM: Nunca havia jogado em Brusque?
PT:
Já. Em 2007, pelo Avaí, num Catarinense. Conhecia o estádio já.

JM: E o começo no futebol foi lá em Tuparendi?
PT:
Foi. Na várzea de Tuparandi. Com 15 anos recebi uma proposta para jogar no Caxias e fui. Fiquei e me transformei em jogador profissional.

JM: Sempre foi zagueiro?
PT:
Sempre. Joguei alguns jogos de lateral. Lateral "fincado" (risos).



JM: E a partir do Caxias, decolou?
PT:
Em 97 fui para o Botafogo do Rio, campeão da Taça Guanarabara, campeão carioca e disputei o Brasileiro. Tinha 22 anos. Treinador era o Joel Santana. Depois retornei para o Caxias, fomos campeões Gaúcho em 2000 e depois fui para o Palmeiras, onde fui campeão da Copa dos Campeões. Este título deu direito a jogar a Libertadores em 2001. E naquele ano também fomos vice-campeões da Copa Mercosul. Fizemos a final contra o Vasco.

JM: O jogo do 4 a 3, de virada...
PT:
Isso. No fim ficou marcado positivamente para o Vasco e negativamente para o Palmeiras. Mas eu não joguei. O Marco Aurélio (técnico do Palmeiras na época) me tirou para colocar um jogador com "mais experiência" da zaga. Eu já tinha 26 anos. Colocou Gilmar, aquele que jogou no Cruzeiro, no São Paulo. Tomamos 4 a 3. Estávamos ganhando de 3 a 0, eu estava no banco. Aí eles fizeram 3 a 1, na saída para o intervalo, e o Júnior Baiano foi expulso do Vasco. Mas eles fizeram 3 a 2. Quando fizeram 3 a 3 o Marco Aurélio mandou eu entrar. Estava pra entrar e eles fizeram 4 a 3, bem no finalzinho. Olhei pra ele e ele mandou voltar.

JM: Quem jogava contigo naquele time?
PT:
Tinha o Tuta, o Galeano, o Basílio, o Arce, Taddei, que agora está na Roma, o Juninho, atacante muito rápido que está há 10 anos no Japão, é rei lá. Tinha o Lopes, que se envolveu num monte de confusão mas é um baita jogador. O volante Fernando também jogava. Era um timaço. Considerado o "bom e barato", que foi um time montado logo depois do fim da parceria com a Parmalat. Naquele ano chegamos nas quartas-de-finais da João Havelange, perdemos para o São caetano, que depois eliminou o Grêmio e perdeu na final para o Vasco também.

JM: Foi tua melhor época?
PT:
De 2000 até 2005 fui muito bem. No Caxias fui campeão Gaúcho em 2000, em cima do Grêmio. O Tite era meu treinador. No Palmeiras fui campeão da Copa dos Campeões. Em Portugal, no primeiro ano fui vice do Campeonato Português pelo Boa Vista, no outro ano chegamos nas semifinais da Taça Uefa (atual Liga Europa), jogamos contra Celtic lá em Glasgow, empate em 1 a 1 e em casa perdemos por 1 a 0 aos 38 do segundo tempo. E esse jogo em casa não joguei porque tomei o terceiro amarelo lá em Glasgow. Dois anos depois fui pro Vitória de Guimarães, em Portugal, e chegamos em quarto no nacional.

JM: Jogar em Glasgow deve ter sido emocionante...
PT:
Foi o ambiente mais fantástico que já joguei. Não tem descrição. Pessoal fala em São Paulo, Flamengo, mas não tem igual. Eram 67 mil pessoas. Quando entramos em campo tinha um barulho ensurdecedor. É uma torcida organizada, diferente do Brasil. Não pula, não... mas eles vibram o jogo todo, incentivam sem parar. Em termos de torcida foi o jogo mais marcante que já participei. Eles são devotos do futebol.
  
JM: Onde mais você jogou na Europa?
PT:
Joguei em Dortmund, Munique, Manchester, Barcelona... Em Manchester tinha 76 mil pessoas no estádio. Entramos lá e tomamos 3. Mas 3x3 não seria nenhum absurdo. Jogamos de igual pra igual.
Me considero um jogador realizado. Só não disputei Copa do Mundo porque não joguei na Seleção. Disputei desde Copa Santa Catarina, série A, B e C do Brasileiro, Libertadores, Mercosul, Copa do Brasil, Português, Taça de Portugal, Taça Uefa e Champions League. Disputei tudo o que um jogar sonha.

JM: E enfrentou vários jogadores de nome reconhecidos internacionalmente...
PT:
O Ronaldinho enfrentei duas vezes e ganhei as duas. Uma no Caxias, quando ele estava no Grêmio, e lá na Europa contra o PSG, eliminando eles. Além dele marquei o Owen, David Beckham, Larsson, e mais um monte desses atacantes. Passei o cerrote em todos (risos).

JM: Mas o mais difícil, quem foi?
PT:
Foi o Van Nistelrooy. Grandão, forte, faz gol. É rápido. Foi o mais difícil.

JM: É difícil encontrar jogadores que seguiram estudando mesmo jogando futebol. Você estudou até que série?
PT:
Fiz o segundo grau. E até prestei vestibular. Mas não passei. Mas não me rebaixo a ninguém que tem o certificado. Nesses anos todos de futebol conheci 35 países, culturas diferentes. Só não tenho o certificado. E sempre tive a liderança, desde criança. E gosto muito de assistir programas de história. Me interesso. Assisto os jornais na TV, me informo.

JM: Tu és bastante comunicativo. Tem Facebook, Orkut, Twitter, site pessoal. Tu mesmo cuidas disso tudo?
PT:
Sim. Por enquanto consigo dar conta. Também não fico dando "bom dia" pelo Twitter, como muitos fazem. Mas acho importante manter este contato. Uso muito essas ferramentas para interagir com o pessoal, com a torcida. Gosto de manter uma boa relação com a imprensa também. Mas tudo tem um limite. Não pode ser extremo de nenhum lado.

JM: Em 18 anos de carreira de jogador, passou por diversos treinadores. Quem mais te influenciou?
PT:
Tive um treinador em 1993 que me ensinou muito no trato com os jogadores. Professor Ademir dos Reis. Está lá em Caxias hoje. Eu era jogador do Caxias. Eu, o Washington, Luciano Almeida, fomos campeões gaúchos de juniores. Ele ensinou pra mim a ser o comandante e ser amigo. A hierarquia é bem definida, mas nada impede de ser amigo. Depois ele foi auxiliar do Felipão na Arábia, no início da carreira do Felipão, mas depois voltou a Caxias, trabalhou por ali e ficou.
Dos mais recentes, me inspiro muito no Tite, uma baita pessoa. Felipão e Murtosa, que são os caras que me deram a oportunidade de ir pro Palmeiras e depois, em Portugal, a gente interagia muito. Eles me ligavam pra pedir informações dos jogadores. Também aprendi muito nos 15 dias que passei com o Muricy lá no Fluminense, recentemente. O cara me recebeu muito bem. Me deixou totalmente a vontade. Foi uma aula. E gosto muito da maneira como o (José) Mourinho trabalha. Leio muito sobre o trabalho dele, assisto os jogos dele, as entrevistas. Disso tudo tiro as coisas boas. Mas tenho meu perfil. Sou o Paulo Turra, e não o "Felipinho" ou o "Mourinhozinho".
  
JM: Como tu gostas de montar tua equipe?
PT:
Tenho três esquemas. Vai ser muito difícil tu me ver usando o 3-5-2. Talvez, determinada situação dentro do jogo, que eu precisar que um volante marque o segundo atacante pra eu liberar os laterais, pode até ser. Mas de sair jogando com o 3-5-2 não é meu foco. Gosto de duas linhas de 4, alternando a segunda linha, que pode ser 2-2, ou em losângulo ou linha bem definida, como se joga bastante na Europa, mas pra isso tem que ter os jogadores certos. Aqui no Brusque estou fazendo 4-2-2-2, justamente porque é um clube que vem de títulos nessa formação. No futuro posso fazer o losângulo, ou o 4-2-3-1, como a Seleção vem jogando com o Mano.

JM: Tens pouco tempo de trabalho no Brusque, mas o que te chamou a atenção nestes primeiros dias?
PT:
Gostei muito do João Neto. Fiquei impressionado com o potencial desse rapaz. Ele passou por cima dos caras (no jogo-treino contra o Tupi de Gaspar). Comigo ele vai jogar e vai dar o salto. Se ele continuar demonstrando o que demonstrou, vai crescer muito. Ele vai pra cima dos caras, passa por eles. Lógico que precisa melhorar na marcação, fazer a cobertura no lado contrário, mas tem uma força muito grande. Nosso time é muito bom. É muito rápido, é o que eu gosto. Força e velocidade. Encurta os espaços, compacta a equipe, e quando tiver a bola sair em velocidade.
Tenho certeza que vamos chegar forte nesse campeonato.

JM: Gostaria que você falasse da tua filosofia de trabalho?
PT:
Em seis dias treinamos físico, técnico, tático, fizemos um jogo-treino, ganhamos. Trabalhamos com bola desde o início. Não acredito em treino que bota jogador pra ficar dando volta no gramado. Isso faz parte do passado. Jogador é com bola. E tu faz campo reduzido, 3 contra 3, 4 contra 4. Tudo com simulação de jogo. Os jogadores sabem a função que vão fazer. Todo mundo tem que atacar compactado, defender compactado, fazer o balanço. Mesmo em campo reduzido, trabalho o tático. Não vai ser fácil, mas tu vais ver a minha equipe bem posicionada.

JM: Mas isso só não garante vitória...
PT:
Não. Mas é o caminho mais curto para a vitória. E com a qualidade que temos, não tenho medo nenhum de dizer que vamos fazer um campeonato muito bom.

JM: Consegues tempo para assistir futebol na TV?
PT:
Assisto muito. Principalmente Champions League. Assisto muito jogo. Assisto segunda divisão de São Paulo na Rede Vida. O que aparecer estou vendo. É meu trabalho. Lógico que às vezes tem que dar um tempo. Mas estudo muito futebol. Vejo as duas equipes posicionadas, o que eu faria no lugar do treinador. Procuro fazer esta interação comigo mesmo.


JM: O que você vê no teu futuro?
PT:
A cada dia aprendo mais. E não tenho dúvida que vou chegar no topo. Daqui a alguns anos vou estar treinando um time grande no Brasil, que nem é meu objetivo. Meu objetivo é treinar lá fora mesmo. Vou estar lá no topo. Tenho convicção no meu trabalho. Minha filosofia é diferente, tenho algo a dizer. Vai dar certo aqui, daqui a pouco vai dar algo errado, o que é normal. Mas vou chegar.
Só que aqui no Brasil tem uma coisa: às vezes o "certo não é o certo". Mas o certo é o caminho mais próximo pra se chegar a vitória.

JM: Da onde vem essa nova filosofia
PT:
Aprendi muito em Portugal. No Vitória de Guimarãaes tinha um baita treinador. Manoel Machado, um cara tranquilo, de conversa mansa, muito bom taticamente. Comecei a me colocar no lugar dele, a pensar o que seria bom para a equipe. Conversando com jogadores mais experientes, comecei a ler, e vi que poderia ser treinador.

JM: Fala-se muito em o Brusque contratar um "medalhão", um jogador de nome, como foi o Viola nesse ano. Qual a tua opinião sobre isso?
PT:
Tenho uma ideia. Se daqui a pouco a direção me chamar e colocar essa ideia, vamos discutir. O marketing é muito importante, mas tem uma série de coisas a se considerar. Têm atletas e atletas. Tem que ser exemplo. O bom seria trazer um Kaká, que é exemplo dentro e fora de campo. Se eles quiserem realmente trazer alguém assim, eu posso até indicar, porque conheço muitos.

JM: Quem tu indicarias?
PT:
Aí não vou te falar. Tenho amigos que estão jogando e que poderiam vir. Mas não posso falar.

JM: Fora o futebol, o que te atrai?
PT:
Nada. Minha esposa fica braba, mas fora o futebol gosto de ficar em casa vendo futebol.

sábado, 13 de novembro de 2010

Viva Las Vegas!

Uma vez fui pra Las Vegas. Na verdade era a segunda vez. Tinha ido seis anos antes, mas naquela época tinha 19, e com menos de 21 se faz pouco nos EUA. Não bebia naquele tempo, e nem se quisesse poderia comprar uma cerveja. E não podia entrar em nenhuma boate, nenhum bar que só abre à noite. E tem mais, tinha namorada, no Brasil, é verdade, mas era minha namorada. E respeito é algo que você tem ou não. Eu tinha.



Mas, bueno. Lá estava eu novamente em Las Vegas, agora com 25 anos, solteiro, um bêbado em potencial e muita vontade de conhecer as americanas. E como elas ficaram mais bonitas nestes seis anos! Antes só se encontravam rochunchudas e bagaceiras. Agora não. Mulheres bem vestidas, com charme, rostos de Laura Jean Reese Witherspoon, pernas de Cameron Diaz.

Estava fascinado.

Problema que estava em família. Avós, tios e tia-avó. Meu tio, que poderia ser parceiro pelo menos na bereja, estava toda noite cansadaço de tanto perambular com as mulheres pelos sedutores outlets, aquela espécie de shopping que vende casaco da Kalvin Klein por 20 dólares. As mulheres, em especial as brasileiras, se perdem lá. Isso não mudou nada dos seis anos que separaram minhas duas visitas.

Não perco meu tempo comprando em viagem. Claro, uma comprinha aqui e ali sempre acontece. Mas é que o verbo que emprego quando saio de casa é “viajar” e não “comprar”. E também, até hoje, nunca viajei de bolso cheio.

Fato é que enquanto todos carregavam sacolas cheias de roupas por entre corredores refrigerados tais quais nos shoppings brasileiros, eu andava pela Las Vegas Boulevard e admirava sua arquitetura impensável, com seus prédios imitando Paris, Nova York, Veneza, Roma.

Que Las Vegas é assim: todos os hotéis são cassinos – ou todos os cassinos são hotéis?. E quase todos os cassinos-hotéis imitam um lugar do mundo. Estávamos hospedados no Caesars Palace, que imita a Roma de César. Do outro lado da rua está o Paris e sua Torre Eifel com a metade do tamanho da original bem na frente, e o Veneza, com rios e gôndolas e praças desde o seu sub-solo até o segundo andar. Uma loucura. Algo inacreditável.

Alguns minutos dali, caminhando, está o New York New York, imitando, obviamente, Nova York. Lá tem até montanha russa que passa por dentro do prédio. Tem a Brodway. E tem pubs irlandeses. Não me pergunte por quê, nunca estive em Nova York, não na original. Mas, de certo é porque lá tem muitos pubs irlandeses. Os donos de Vegas não cometeriam uma gafe deste tamanho.

Além do mais, se há ou não pubs na Nova York original, os do cassino são demais. Antes de chegar a um deles, comprei uma cerveja na rua. Miller Draft. Pedi pra colocar dentro de um saco de papel marrom, igual nos filmes, e saí faceirão caminhando, sozinho, e bebendo. Acabou aquela, comprei outra. E mais outra.

Cheguei no pub levinho. Mostrei, com o peito estufado e cabeça erguida, meu passaporte na entrada, afinal já tinha passado dos 21 e estava autorizado a entrar. Lá dentro, um astral elevadíssimo. Pessoas dançantes e eu, meio bêbado e com a camisa da Seleção Brasileira, com Ronaldinho escrito às costas, logo me enturmei. E bebi mais. Com companhia a gente sempre bebe mais.

Dois pianistas postados um de frente pro outro em seus pianos de calda comandavam o agito. Só música dos anos 80 pra trás. Foram de Queen a Beatles, com muita qualidade. E eu já tava doidão, feliz da vida. Na primeira noite em Vegas pela segunda vez eu já estava tirando todo tempo perdido da primeira vez!

Saí de lá quando pararam de tocar, pelas 3h da madruga. É assim: de segunda à quinta os pubs e boates fecham entre 2 e 3 da madrugada. Sexta, sábado e domingo ficam abertos até as 4, bem tenteadinho até as 5h. Só os cassinos e suas mesas e maquininhas não fecham. Não se perde tempo para perder dinheiro.

Com a felicidade grafada no rosto voltava cantente para o hotel, já realizado. No caminho, quando ia subindo uma escada rolante a céu aberto, vejo a loira mais linda do mundo descendo, ao lado, cruzando por mim e me encarando como se tivesse se apaixonado por esse rostinho ali mesmo. Amor à primeira vista, pensei na hora. Vou casar em Las Vegas, arrumar um emprego e nunca mais volto pro Brasil. Tá feito.

Ela termina a descida e eu termino a subida. Ainda nos olhamos. E ela começa a subir, em minha direção, me olhando. Meu coração começa a bater mais forte. Desejo aquela mulher como nunca desejei outra.

Vou tentar descrevê-la: tinha perto de um metro e sessenta e cinco, não muito mais, nem muito menos. O cabelo era loiro, meio encaracolado nas pontas, se é que você me entende. O rosto era fino, o nariz era esguio, e as bochechas, magras. Mas o que me quebrou mesmo foram os olhos verdes abduzidores, contornados por uma maquiagem escura mas leve. E seu corpo era igualzinho ao da Carolina Dieckmann. É sério! Não to contando vantagem.

Ela se aproximou e eu puxei papo num inglês mediano. Ela não se importou. Sorriu o sorriso mais lindo do mundo e perguntou da onde eu era.

Brasil.

Sorriu de novo e eu congelei. Não acreditava em tamanha sorte. Assim, no primeiro dia, aquilo tudo?

Na próxima frase ela perguntou se eu estava procurando diversão. E comecei a entender tudo. Na seguinte ela quis saber se eu queria sexo.

Disse que sim e perguntei quanto custava.

- Em qual hotel você está hospedado.

- Caesar.

- Sozinho?

- Não.

- Podemos ir pra lá?

- Não.

- 300 pila mais um outro quarto de hotel.

- Obrigado, mas hoje não.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Paul Macca, nós fomos


Beatlemaníaco ou não, fã do Paul McCartney ou não, você ainda tem (ou tinha?) uma chance de assisti-lo no Brasil esse ano. Ele toca em São Paulo no domingo, 21, e na segunda-feira, 22. Serão as duas últimas apresentações dele em 2010. E acredite: vale muito a pena estar na frente do palco quando Sir Paul McCartney entrega todas as suas energias aos acordes de "Venus and Mars", a primeira música do setlist.

Fomos ao show dele em Porto Alegre, no dia 7. Não tínhamos grana suficiente, não tínhamos tempo, mas tínhamos muita vontade de ver um beatle no palco. Teríamos que fazer uma viagem "bate e volta", de carro, pagar R$ 160 no ingresso, comer na estrada, dormir ou não e voltar para trabalhar na segunda-feira. A vontade foi mais forte. Compramos os ingressos e caímos na estrada.

Depois das três horas de show, há quem tenha saído do estádio Beira Rio certo de que um espetáculo daqueles pode mudar o mundo. O jornalista Felipe da Costa Conti, que também viajou de Brusque até Porto Alegre nesta mini-caravana MDD e David Coimbra, editor do Jornal Zero Hora, concordam.

- Se tem um show destes por semana, acabam-se as guerras do mundo -, falou David Coimbra no dia seguinte, em sua participação no programa Pretinho Básico, da Rádio Atlântida.

- Passei a acreditar que um show de rock pode mesmo mudar o mundo. Não acreditava nisso antes. Saí diferente de lá. Fui trabalhar feliz no outro dia -, explica Felipe.

Eu, Mauricio Haas, sabia que seria um grande show, que o Paul era um grande músico, um artista fora de série, mas não sabia que era uma pessoa tão "do bem", simpático, atencioso e cortês. Ele agradeceu cada aplauso, em cada música!

Já eu, Aline Camargo, empolgada, na volta só sabia dizer: 'Inesquecível! Valeu cada centavo! Foi demais! Ele é incrível! Daqui alguns anos não vamos lembrar quanto custou o ingresso, se tínhamos ou não dinheiro para ir, vou lembrar da sensação de cada momento espetacular do show. Como aquilo marcou minha vida!'



Marcas para toda a vida

A volta para Brusque foi cheia de teorias e lembranças sobre os fatos do terceiro show de Paul McCartney no Brasil - ele já havia tocado em 1990 e 1993, no Rio de Janeiro e em Curitiba.

- As pessoas não têm senso histórico, e só pela história já vale a pena ver o show do Paul. Ele é um beatle, um dos quatro integrantes da maior banda de todos os tempos. Uma lenda esteve entre nós - dizia Felipe.

- Assistir a um show do Paul é participar da história. Não sabemos se ele vai voltar a tocar no Brasil, podemos ter visto a última turnê de um beatle pela América do Sul - completava Maurício.

- E o cara tá em plena forma aos 68 anos! Lembram dele agitando no palco, tocando, cantando e dançando o tempo inteiro? Eu não imaginava que ele fosse assim. Esperava um show mais contido, que ele fosse mais blasé. E de repente ele entra "sir" Paul McCartney, arrumadinho, de terno, e três músicas depois vira nosso amigão, todo descabelado, interagindo com o público a todo instante - relembra Aline.

- Deu para perceber que ele estava extremamente feliz no palco, e que tinha se preparado para tocar em Porto Alegre. No meio do show larga aquele "mas bá, tchê", levando o estádio inteiro ao delírio. Sem falar nas outras frases em português -, empolga-se Maurício.

- Sim, em "My Love", ele explicou em português, com sotaque britânico: "Esta música eu fiz para minha gatinha, Linda. E hoje ela é para todos os namorados" - repete Aline.

Se você ainda está se perguntando "será que vou no show em São Paulo?", esqueça os empecilhos e vá. Se pudéssemos, repetiríamos a dose. Já estamos arrependidos de não termos enfrentado a estrada até Buenos Aires, onde ele tocou quarta e quinta-feira desta semana.


Resumo em vídeo feito por Paulo Morelli
___________________
Matéria escrita a quatro mãos com Aline Camargo. Publicada no dia 12 de novembro, no Jornal Município Dia a Dia, de Brusque.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Juca Kfouri em Blumenau


Juca Kfouri entra no pomposo Teatro Carlos Gomes, em Blumenau, vestido como se fosse ao Pacaembu assistir Corinthians X Mogi Mirim pelo Paulistão: calça jeans, tênis e uma camisa pólo preta nitidamente bastante usada. Está lá para palestrar a aproximadamente 150 pessoas que sentaram para ouví-lo falar sobre Dunga versus Fátima Bernardes, Neymar, Copa do Mundo, Olimpíadas, gestão esportiva e outros assuntos ligados ao esporte e a política. Era quinta-feira, 30 de setembro, quatro dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, país que, segundo ele, nunca teve uma política esportiva em 510 anos.
A seguir, os melhores momentos dos aproximados 90 minutos em que este jornalista de 60 anos - 40 de profissão - falou, insinuou e bradou contra os que travam o crescimento do esporte brasileiro.

Primeiro o blá, blá, blá...

Eeeeu? Magiiina!

Jogar bonito ou ganhar?
"O que você prefere: ganhar jogando feio, ou perder jogando bonito? Eu respondo que prefiro ganhar jogando bonito. Já vi a Seleção ganhar jogando bonito nas Copas de 58 e 70, e já vi a Seleção ganhar jogando feio na Copa de 94. E vi perder jogando feio agora, na África do Sul. É possível dar espetáculo e ganhar. E, se só vale o resultado, por que vou ver (o jogo)?"

Dunga, o mal educado
"Quero deixar bem claro: eu não considero o Dunga um fracassado. Ele é que se considera. A Seleção perdeu (para a Holanda, na Copa 2010) porque tomou um susto. De repente o melhor goleiro do mundo sai mal do gol e Felipe Melo faz um gol contra. Dunga olhava pro banco e perguntava pro Jorginho: e agora? Júlio Baptista, Josué, Grafite. Cadê o Pato? Cadê o Ganso? Não estavam por teimosia do técnico.
Mas ele fez uma coisa certa. Não favoreceu nenhum veículo de imprensa. Tratou indiscriminavelmente mau a todos. Teve a coragem de não permitir privilégios a ninguém, o que é bom. Outra coisa é ser mal educado, como foi com o Escobar (repórter e apresentador da Rede Globo) e com a Fátima Bernardes (apresentadora do Jornal Nacional)."

Missa ou farra?
"Na Copa de 70, a delegação brasileira foi chefiada pelo brigadeiro Jerônimo Bastos, designado pelo governo brasileiro, do general Emílio Garrastazu Médice, em plena ditadura. Pelé, Rei do Futebol, autor de mais de mil gols já então, conta que saía da concentração na caminhonete de roupa suja. O Felipão, na Ásia, combinou com os jogadores como seria. A ponto de Roberto Carlos, que esteve em 2002 e em 2006, dizer que a festa foi muito maior em 2002. E eles foram campeões. Nem um nem outro." "Uma copa não se ganha nem na farra nem na missa" - título da palestra apresentada naquela quinta-feira.

Depois o cascalho...

O Curíntia vai ser campeão da Libertadores ano que vem

"Há muita hipocrisia", brada Juca Kfouri sobre o caso Neymar. "Punição a esse moleque, o Neymar!", continua, sarcástico, antes de arrematar. "Mas que não teve infância, que desde os 13 anos vem sendo preparado para ser jogador de futebol, para ser o melhor do Brasil. E a gente o quer sob prisão perpétua. Mas o filho da gente, não queremos preso, punido. Não sei como seria se pegasse meu filho de 19 anos, colocasse pra jogar bola no Corínthians, ele virasse ídolo, passasse a ganhar R$ 350 mil por mês. Isso que ele sempre fez as três refeições diárias, estudou nos melhores colégios.

Imagina o Neymar. Imagina o Adriano. Não estou justificando, estou querendo mostrar que vivemos numa situação tal que nossos clubes pagam R$ 350 mil para um moleque que saiu da favela, do cortiço, e não paga um psicólogo pra cuidar desse jogador. Esse é o futebol que nós temos. Talentosíssimo, melhor do mundo, mas inteiramente amador do ponto de vista da gestão. País sede da Copa do Mundo em 2014. E das Olimpíadas, em 2016.

As Olimpíadas estão chegando
"Acabamos de fazer os Jogos Pan-americanos, no Rio, em 2007. Estavam orçados em R$ 400 milhões. Custaram R$ 4 bilhões. O Tribunal de Contas da União (TCU), em seu relatório, disse que realmente houve superfaturamento, falta de licitação, obras feitas em regime de urgência sem serem de urgência justificável, e a desculpa para não penalizar o comitê organizador é porque há muito tempo o Brasil não sediava um evento daquele porte, e as falhas foram por inexperiência. Engraçado é que as mesmas pessoas agora vão fazer a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Vocês se lembram que os legados do Pan no Rio seriam a despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas, da Bahia de Guanabara e uma nova linha de metrô. Se uma destas três coisas tivessem ficado de legado, apesar do orçamento estourado dez vezes, estaria legal. Só que nada disso aconteceu. Pior, ficaram os elefantes brancos.

O estádio de futebol, o Engenhão, que é o mais moderno do Brasil (inaugurado em 2007) sequer é cogitado para a Copa do Mundo de 2014. O Parque Aquático Maria Lenk, descobriu-se agora, não atende as exigências de capacidade de público do Comitê Olímpico Internacional e, portanto, será usado apenas para o aquecimento dos atletas nas Olimpíadas de 2016.

Vamos receber as Olimpíadas aqui a troco de quê? Das nossas brilhantes participações em anos anteriores? Dos nossos Guga's produzidos a 3x4? Cielo's a 3x4 por causa da política de natação? O Brasil tem 510 anos de idade e nunca teve uma política esportiva, embora esteja em nossa constituição que é dever do Estado prover a população e é direito do cidadão ter acesso ao esporte. A última coisa que se fala é em democratização ao acesso à área esportiva. E olha que a Organização Mundial da Saúde tem uma estatística que mostra que cada dólar investido em esporte economiza três na saúde.

Um país do tamanho do Brasil, com a população que tem, colheria qualidade da quantidade. A qualidade você põe na mão da iniciativa privada que ela cuida, melhor que o Estado. Não é função do Estado fazer campeões.

Copa 2014 com cara de Brasil ou de Alemanha?

Ricky Teixeira é um mumuzinho de pessoa

"Vamos lembrar. Copa do Mundo na França, em 1998: ergueu-se apenas um estádio. Quatro anos antes, no país mais poderoso do mundo, os Estados Unidos, não construíram um estádio, adaptaram os de futebol americano e baseball para o "soccer". Nós estamos falando em fazer arenas.

O comitê organizador da Copa na França era presidido por um ex-jogador, Michel Platini. Na Copa da Alemanha, o comitê era presidido por um ex-jogador de futebol: Franz Beckenbauer. Como aqui não temos nenhum jogador de grande nome, nenhum craque, o presidente do comitê é também o presidente da CBF: senhor Ricardo Teixeira. E a secretária executiva desse comitê é a dona Joana Havelange (filha de Teixeira, neta de João Havelange).

Esse presidente do Comitê, dez anos atrás saiu com 17 indiciamentos de uma CPI em Brasília. E, por birra, nos faz engolir que o Morumbi não pode receber a Copa do Mundo.

Há 50 anos o estádio recebe jogos de nível internacional. Foi palco de decisões da Libertadores, de inúmeros jogos da Seleção Brasileira, do Mundial de Clubes da Fifa. Agora não pode mais receber um evento de um mês. Cinco jogos. São Paulo precisa de uma nova arena: o "Fielzão".

O presidente já disse que o "Fielzão" vai custar R$ 350 milhões. Curiosamente, a nova Fonte Nova - estádio em Salvador -, que será construída no lugar onde estava a velha, custará R$ 580 milhões. Gozado também que é a mesma empreiteira que vai fazer os dois. Mais gozado ainda é que a reforma do Maracanã está orçada em R$ 1 bilhão, pela mesma empreiteira.

Estamos fazendo estádio novo em Cuiabá (MT), onde não tem um time importante no futebol brasileiro. Mas Florianópolis está fora da Copa. Vamos ter estádio em Brasília, onde não tem tradição em futebol profissional. Teremos um Manaus, onde também não tem futebol profissional. Estádios para três ou quatro jogos.

O Morumbi não é um estádio ideal? Não, não é. Mas não estamos em condições de brigar por estádio ideal. Temos que brigar pelo ideal nas estradas, nos aeroportos, na rede hospitalar, rede hoteleira. Podemos fazer uma Copa do Mundo no Brasil, mas a Copa do Mundo do Brasil, não da Alemanha.

sábado, 25 de setembro de 2010

Garoto sem rumo


Vi meu avô perder o rumo da mente porque perdeu o objetivo da vida.

Depois dos 70, sedentário, restrito a cobrar aluguéis e tomar chimarrão, arrumou uma festa destas de família com o mesmo sobrenome para organizar.

Envolveu-se naquilo por dois anos. Enviou convites, telefonou, contratou bifê, banda, som, escolheu o local da festa, a decoração, a carne, reuniu os filhos e os netos, as noras. Deu tudo certo. Quase 400 pessoas de todo Brasil com o sobrenome Haas almoçaram juntas num baita domingo de sol. Talvez tenha sido o dia mais feliz da vida do meu avô. Impossível esquecer o sorriso dele caminhando no meio da festa.

Só que no outro dia ele não conseguia mais registrar sua assinatura num simples pedaço de papel. Seu raciocínio era tão lento que o impedia de terminar as frases. Sua mente estava perdida.

De início achei que era stress, ressaca. Depois percebi que ele tinha perdido o sentido. Não havia mais rumo para a sua vida. Teria que voltar para a rotina de aluguéis, TV, chimarrão. Era pouco para mantê-lo plenamente vivo, feliz.

Sua saúde, antes, já não era a de um atleta. Mas dali pra diante, foi minguando. Sua fala, sua memória, sua barriga grande e exuberante, seus movimentos, jamais foram os mesmos. Até que um dia ele despediu-se, no hospital.

Dói contar esta história e observá-la com certa frieza. Jamais fui um verdadeiro parceiro pra ele. Não porque eu não quisesse, ou ele não quisesse. Gostaríamos. E adorávamos quando estávamos juntos. Chimarrão ao lado dele sempre foi prazeroso. Mas estivemos distantes por muito tempo.

Porém, ele deixou esta história como ensinamento. Ela serve para mostrar que uma vida sem objetivo se acaba. Vida. Qualquer coisa que possa morrer, se não tiver algo para perseguir, passa.

Então comecei a pensar nos meus objetivos.

Iniciei pelos já alcançados. Fui um boleiro de rua bem sucedido. Ainda sou. Fui bicicleteiro. Até cavaleiro e baterista já fui. Saí duma cidade de interior para ser o primeiro da turma a fazer intercâmbio no exterior, a ter um emprego pós facul, a morar solito longe dos velhos.

Acabada a faculdade, queria trabalhar com esporte. Acabei num jornal diário, escrevendo só sobre esporte. Queria fazer este jornal se vender pela editoria de esporte. Está feito.

Depois vieram alguns fracassos.

Pensava em casar com uma bióloga linda, com quem vivi ao longo de nove anos. Não rolou. E quando errei o alvo, me vi sem foco, talvez pela primeira vez na vida.

Até entender que errar o gol faz parte do jogo levou um tempo. Nesse período perdi a taça do campeonato de vista. Ela nem me interessava mais. Assim, perdi a faixa de capitão e acabei no banco de reservas.

Agora é hora da remuntada, como diriam os espanhóis.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A estupidez gravada na memória

Dia 10 de julho presenciei uma das maiores barbaridades que já vi diante das minhas ventas. Saí intacto, mas o amigo e narrador Rodrigo dos Santos, não. Sangrou pelo nariz e pela boca após ser agredido por um funcionário da Federação Catarinense de Futebol durante a transmissão do tricampeonato da Copa Santa Catarina, conquistado pelo Brusque FC, diante do Joinville, na Arena da Manchester Catarinense.

Abaixo está o que publiquei no Jornal Município Dia a Dia, de Brusque, na edição da segunda-feira, 12 de julho.

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A agressão do filho do presidente da Federação Catarinense de Futebol, Delfim Mário de Pádua Peixoto Neto, 39 anos, ao narrador da Radio Cidade e colunista do Jornal Município (de Brusque/SC), Rodrigo dos Santos, 31 anos, já repercutiu em sites, jornais, rádios e televisões de todo Brasil.

Escrevo para relatar o que vi, pois estava dentro da cabine onde Rodrigo foi agredido, no momento da estupidez. Além de nós dois, estava Paulo Sérgio "Xirú", comentarista da Rádio Cidade. E se não estivéssemos em três, talvez o "Delfinzinho" - como é conhecido o filho de Delfim de Pádua Peixoto Filho, o presidente da FCF - tivesse conseguido efetuar com êxito esta tentativa de homicídio contra Rodrigo.

Quando percebi, Delfinzinho, vestindo um casaco da CBF, já estava dentro da cabine de imprensa número 6 da Arena Joinville, onde a Rádio Cidade de Brusque fazia a transmissão do jogo Brusque 1x1 Joinville, e eu escrevia sobre a partida.

Era dia 10 de julho de 2010. O jogo tinha acabado há poucos minutos, os microfones estavam ligados e a brutalidade do filho do presidente foi transmitida ao vivo. Resguardado por quatro "guarda-costas", Delfinzinho entrou socando o narrador Rodrigo dos Santos. Eu, Paulo Sérgio "Xirú" e Rodrigo estávamos de costas para a porta da cabine, olhando para o campo, onde a festa do tri do Bruscão começava.

Vi o Delfinzinho derrubar o Rodrigo da cadeira com um soco. Caído, o narrador não teve chance de se defender dos chutes que recebeu no estômago e no rosto. Eu e Xirú, atônitos, levantamos para defender o colega e amigo. Pedimos, aos gritos, que parassem, e tentamos segurar os agressores.

Dois guarda-costas cuidavam da porta e outros dois distribuíam cadeiradas em mim e no Xirú. A atitude durou intermináveis segundos, até que conseguimos tirar os cinco intrusos da cabine. Não consigo explicar como os espantamos para fora. Também não tenho explicação para a fuga deles, para o fato de a Polícia não tê-los prendido já no estádio, em flagrante. Os cinco simplesmente sumiram.

Rodrigo foi atendido pelos Bombeiros, passou três horas no hospital da Unimed em Joinville, tirou raio-x do rosto e constatou que não havia fratura.

A imprensa, a diretoria do Brusque e diversas pessoas prestaram solidariedade. Todos sabem que Rodrigo é um amante do futebol. Trabalha dia e noite pra saber e trazer as notícias do esporte a seus leitores, ouvintes, telespectadores. Tem muito conhecimento do que fala, tem uma credibilidade imensa, busca a informação e passa adiante. Sabe dos bastidores, e sabe que lidar com Delfim e companhia é muito perigoso. Mas nunca se acovardou por isso.

Estranho é que a diretoria joinvilense não prestou nenhuma solidariedade. Sequer a pergunta "está tudo bem?" partiu dos senhores do JEC quando eles nos observavam sair do estádio às luzes apagadas. Delfim, o pai, disse no microfone da Radio Cidade que "nada tem a ver com isso". No mínimo, deveria ter educado melhor seu filho que, aliás, esteve preso até 2008 por tráfico de drogas e porte ilegal de arma.

Voltamos a Brusque de madrugada, escoltados pela Polícia de Itajaí, que foi nos encontrar no meio do caminho. A cena da atitude ridícula de Delfinzinho invadindo a sala e distribuindo socos e chutes jamais sairá da memória. Só espero que o fato sirva pra mudar o panorama do futebol em Santa Catarina. Pessoas assim não podem fazer parte da cúpula que controla o esporte mais importante do país.

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Três dias depois o caso ainda repercute. ADI, Adjori, Acesc, a própria FCF, Comuniqui-se, Jornais de toda SC, entre outros órgãos se manifestaram contra a agressão. O próprio Delfinzinho, em entrevista a Ric-Record, admitiu que subiu até a cabine e envolveu-se em confusão com o narrador.